
Por Jessé Oliveira*
Algumas considerações
sobre o teatro de rua no Brasil
Poucas modalidades artísticas,
no Brasil, sofreram tantas transformações
em tão pouco tempo como o teatro de rua. Sua conceituação
e aceitação pública se alteraram
radicalmente desde o final dos anos setenta até
os dias de hoje. Mas seria necessário voltar um
pouco mais atrás na máquina do tempo para
compreender o fenômeno.
Um rápido lembrete sobre
o período que antecede ao golpe militar de 1964
e a ebulição artístico-intelectual
em que vivia o país. Há, então, o
marco do teatro de agitação promovido, especialmente,
pelo CPC (Centro de Cultura Popular) da UNE (União
Nacional dos Estudantes), abordando temáticas que
criticavam o capitalismo e as contradições
do nacionalismo de direita. Neste período, o teatro,
bem como as demais expressões artísticas,
torna-se sinônimo de luta para transformação
do modelo político-econômico do Brasil.
No final dos anos setenta, início
dos oitenta, o teatro de rua ressurgiu através
de algumas experiências esparsas e de alguns poucos
e honrosos grupos, tais como o Tá na Rua, de Amir
Haddad, no Rio de janeiro, a Tribo de Atuadores Ói
Nóis Aqui Traveiz, no Rio Grande do Sul, e o Imbuaça,
no Sergipe, para ficar com três exemplos dos mais
significativos do país. Estes grupos, junto a outros
que propugnavam um teatro combativo com fortes raízes
populares, determinaram uma matriz com características
bastante definidas e é a partir deles que surgiram
outros grupos. Era uma verdadeira renascença do
teatro de rua e esta renascença estava relacionada
com o período referido anteriormente.
Quando surgem esses grupos e,
especialmente, quando começam a realizar espetáculos
e performances na rua, são recebidos com estranheza
e com um certo desdém pela intelectualidade artística,
que via neles apenas os marginalizados que, por não
terem acesso à salas de espetáculos, apresentavam-se
na rua. Mas a história não era bem assim.
Esses grupos se interessavam pelo fenômeno popular
que é o acontecimento artístico na rua,
marcadamente realizado para os marginalizados economicamente.
Esses novos artistas tinham escolhido a rua como espaço
ideal para o seu discurso estético e afirmação
de uma modalidade radical e transgressora.
Durante muito tempo, os próprios
realizadores de teatro de rua contribuíram para
o preconceito, na medida em que se afirmavam exclusivamente
como portadores de discursos políticos, depreciando
muitas vezes o aspecto estético. No entanto, tais
espetáculos possuíam uma qualidade considerável,
ainda que com fórmulas teatrais um tanto convencionais,
e de narrativas e apelos simplistas e esquemáticos.
Alguns pensadores de teatro eram preferidos — Bertolt
Brecht, Augusto Boal, peças criadas pelos integrantes
do CPC, etc. — , determinando um fazer bastante restrito
ao teatro militante e operativo.
Tal fenômeno, como aponta
André Carreira (estudioso do teatro de rua na América
Latina), gerou uma mitificação do teatro
de rua pelos novos grupos criados no período da
reabertura democrática, no início dos anos
oitenta, na medida em que tomava-se emprestado como referência
um modelo com o qual pouco haviam travado conhecimento:
o teatro militante dos anos sessenta foi retomado, ao
fim da ditadura militar, e compreendido quase exclusivamente
em sua dimensão política. Os discursos mais
comuns dos grupos se referiam ao teatro de rua como “instrumento
de transformação social”. O teatro passava
a ser apenas meio de uma luta política e não
fim. Tendo como modelo um teatro com códigos e
signos restritivos, tal fenômeno reduzia a importância
e o caráter estético do teatro de rua. Sua
teatralidade, bem como sua gênese, foram mitificadas.
Criou-se a idéia de uma
proximidade natural entre o teatro de rua, o circo e as
manifestações populares, como se houvesse
uma consecutividade entre um e outro. Afirmou-se uma familiaridade
dessas linguagens como se o teatro de rua fosse uma espécie
de herdeiro do circo, quando na verdade toda a técnica
desenvolvida no teatro não foi apreendida diretamente
do circo mas, na melhor das hipóteses, inspirada
no circo.
No fim dos anos noventa, então, os limites do teatro
de rua passaram efetivamente a se alargar: o teatro de
rua se hibridizou, tomando emprestado não somente
linguagens e técnicas do circo mas também
da dança, dos esportes radicais, da performance
e das artes plásticas.
Pode-se, talvez, afirmar que
a partir do contato com o fenômeno da antropologia
teatral, de Eugenio Barba, que o teatro de rua começou
a incorporar outras linguagens: recursos visuais como
pernas-de-pau, malabarismo, gaitas e técnicas de
bandeiras conferiram um caráter menos exclusivamente
militante e por conseguinte mais artisticamente teatral.
O teatro de rua começou a sair do estritamente
militante para entrar na categoria propriamente artística,
incorporando em seu léxico novas terminologias
e compreendendo o fenômeno teatral como uma expressão
complexa e dinâmica.
Alguns grupos percebem que o
caráter político e transgressor do teatro
de rua está justamente no alcance da sua obra e
não necessariamente na temática ou narrativa.
É justamente pelo fato de estar em lugares antes
ignorados ou mesmo desprezados pela arte teatral convencional
e burguesa, rompendo com a barreira do espaço ideal
do edifício teatral limitado pelo ingresso, que
reside a importância de um teatro radicalmente democrático
e esteticamente definido por necessidades específicas
de um espaço amplo e de um público plural
e multifacetado.
A partir de então está criado um terreno
próspero para o desenvolvimento de uma teatralidade
específica e salva dos pré-conceitos que
a marginalizavam. O teatro de rua passa de marginal para
reconhecido pelos grande eventos de artes cênicas.
Poucos são, hoje, os festivais que não destinam
parte de sua programação para esta modalidade.
Esta nova realidade não está livre de suas
contradições: o caráter comercial
passa a ser perseguido por alguns criadores, e vive-se
uma banalização no uso de recursos e expedientes
técnicos.
No início dos anos oitenta, nasce um grupo que
revoluciona o teatro de rua no Brasil: o Grupo Galpão,
de Minas Gerais, chega a um patamar que alia qualidade
técnica, proposta de espaço e público
alvo, determinando um salto gigantesco na linguagem empregada
no teatro de rua. Incorpora técnicas circenses,
Comédia Dell’Arte e cultura popular, principalmente
a do interior de Minas Gerais, marcadamente barroca. Com
o Galpão, foca-se o regional como temática
e alcança-se o universal como linguagem.
Hoje, existem inúmeros
grupos de teatro de rua espalhados pelo Brasil, desenvolvendo
diferentes linguagens que, em comum, possuem a certeza
de ser esta uma modalidade rica e com possibilidades infinitas.
Tento definir a existência
de duas poéticas de teatro de rua: uma chamada
de teatro de rua tradicional, largamente desenvolvida
em todos os cantos do Brasil, e outra denominada teatro
de rua de ruptura.
Esta definição é arbitrária,
tratando-se de uma divisão didática para
melhor analisar uma teatralidade mais contemporânea,
a partir de uma perspectiva na qual alguns pressupostos
e códigos são arbitrariamente rompidos a
fim de empreender uma linguagem mais ampla e livre de
definições dadas de antemão. Nesta
definição, a narrativa linear, o espaço
circular, com o público ao redor, os temas ligados
à cultura popular e às temáticas
políticas, bem como uma identidade “nacional”,
são abandonados, proporcionando o reconhecimento
de um teatro rico e híbrido em suas influências.
No entanto, vale ressaltar que, no Brasil, a forma de
teatro de rua tradicional é majoritária,
de grande qualidade, por sinal, servindo mesmo como marca
registrada dos grupos que a ela se dedicam.
Alguns
Estados brasileiros possuem um sem número de grupos
que dedicam-se quase exclusivamente ao teatro de rua:
Rio de Janeiro, com o Tá na Rua, Grupo Dia-a-Dia
e o Teatro de Anônimo; São Paulo, com Parlapatões,
Patifes e Paspalhões e Grupo Fora de Sério;
Minas, com Grupo Galpão e Deu Palla Cia de Arte,
e Rio Grande do Sul com Ói Nóis Aqui Traveiz,
Usina de Trabalho do Ator, Povo da Rua, Oigalê e
Enganadores da Morte.
O Rio Grande do Sul mereceria um artigo à parte
para identificar o seu teatro de rua prolífico
e pujante, onde os grupos brotam como erva daninha, no
bom sentido, é claro. Desde o início dos
anos oitenta, surgiram inúmeros grupos, e alguns
persistiram durante muito tempo com produções
continuadas e de qualidade. Quem faz teatro de rua uma
vez torna-se fiel a esta modalidade, e sua escolha está
ligada a uma definição de linguagem e não
calcada na falta de salas teatrais. O vírus do
teatro de rua inoculado em cada artista é para
ele uma marca carregada com orgulho e, sobretudo, uma
visão estética aguçada e um olhar
sobre a realidade política que distingue a produção
do Rio Grande Sul do resto do país.
Enquanto fenômeno, a América Latina produziu,
talvez ainda por uma herança colonial, uma tendência
à uniformização de linguagem a partir
de modelos importados, especialmente se tomarmos os exemplos
de influências teatrais européias como a
antropologia teatral, geradora de um sem números
de grupos que utilizam os mesmos recursos e linguagens
através de procedimentos técnicos similares.
Igual fenômeno aconteceu em outros momentos, como
quando da influência de Bertolt Brecht no teatro
político dos anos sessenta.
Todavia, nunca se experimentou
um fenômeno tão contraditoriamente rico:
ao mesmo tempo em que os grupos enriquecem suas técnicas,
linguagens e virtuosismo artístico, também
recorrem à expedientes poéticos muito semelhantes
em suas criações. Alguns procedimentos são
recorrentes, como técnicas de bandeira, perna-de-pau,
malabares, pirotecnia, na parte visual das obras, e partituras
e codificação gestual na parte do ator .
Contudo, o encontro com uma gestualidade local, manifestações
populares e literatura oral ou escrita particulares, gera
um produto teatral que só pode ser encontrado neste
grande e diverso Continente.
É possível que
o teatro da América Latina esteja enfrentando uma
profunda crise de identidade na mesma medida em que busca
sua identidade teatral e, como parte do processo, passa
pela etapa de “deglutição”, para empregar
um termo utilizado pelos modernistas para ilustrar o processo
de apropriação realizado por culturas submetidas
e colonizadas.
O teatro de rua, como modalidade
expressiva componente da arte teatral, ainda busca uma
definição conceitual, bem como espaço
para seu desenvolvimento pleno, e tal campo está
forjado para este novo milênio. A amplitude alcançada
através das diversas camadas de interferência
de outras linguagens dão ao teatro de rua sua verdadeira
dimensão: a expressão transgressora e democrática
capaz de tomar os espaços públicos realizando,
ao mesmo tempo, comunhão, festividade e revolução.

* Jessé Oliveira é
Diretor formado pelo Departamento de arte Dramática
da Universidade Federal do Rio Grande do sul, cursou especialização
em Teoria do Teatro Contemporâneo na mesma instituição
e tem trabalho marcado em teatro de grupo, onde desenvolve
trabalho como diretor, produtor e iluminador e ator.
** As Fotos dos espetáculos
apresentadas no texto são "O Auto da Alta"
2007, a "Roupa Nova do Rei" 1997, "A megera
Domada" 2009- ambos dirigidos por Jessé, dentre
tantos outros.